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Pelo fim dos contos de fadas

Fragmentos de um discurso amoroso | Jornal Plural
Cena de Modern Love

Enquanto atendia uma pessoa de idade próxima a minha, que me contava das dificuldades de se entregar por inteiro para o amor, afinal o amor que encontrou é também completamente imperfeito, como essa vida é. Ela me perguntou se eu já tinha assistido a série Modern Love, sobre a qual outras pessoas já tinham me falado; mas eu, com um suspiro um pouco cansado, falei que não.

Afinal estou cansada de assistir séries românticas que em nada simulam a vida real, na verdade mais simulam os contos de fadas da Disney que passei minha infância assistindo e que em nada me fizeram bem.

Descobri que Modern Love não faz parte desse grupo de séries românticas e que mesmo sendo uma série e apenas um recorte de uma realidade, ainda tinha muito mais de vida real do que as outras coisas que já vi por aí. Fazendo a ressalva de que sim ainda é sobre romance.

Talvez por ser baseado em fatos reais, ficou de fato bem mais concreto e palpável. Em vários episódios as pessoas não terminam juntas, não tem um final necessariamente “feliz”, bom, talvez não o final feliz esperado, o final feliz que eu sempre anseio no meio das minhas fantasias de príncipes e princesas. O final feliz de que, sim, um príncipe encantado virá resgatá-la, e claro que existem princesas.

Mas essa não é a realidade, e me dá um pouco de raiva que cresci assistindo e acreditando nesses contos de fadas, e o quanto eles modelaram e infelizmente ainda modelam até hoje minha ideia sobre o amor.


Aqui estou com 30 anos nas costas e esperando e acreditando em amor encantado. Nem pensar.

Eu sei que racionalmente eu não acredito, já atendi pessoas casadas, vejo o casamento de amigos, convivo com diferentes realidades, e sei que em uma cena romântica e mágica, existiram centenas de cenas bem frustrantes, conflitantes e nada românticas, mas chega na minha hora e na minha vida, e parece que ainda estou esperando ser resgatada e começar a viver.

Chega, nem pensar.

Fui na livraria semana passada, tinha um saldão de desconto, e como boa tia que sou, cheia de priminhos-sobrinhos que nasceram em 2020, logo fui ver o que tinha na sessão infantil, e lá vi uns livros super legais desses interativos, de puxar papéis e que os personagens se movem. Fui então ver quais eu poderia levar, tenho um sobrinho-primo menino e duas meninas. Logo vi que tinha Cinderela, Branca de Neve e Ariel. Quando fui ver página por página, afinal como tia responsável tenho que ver o que o livro ensina, e na última página estava escrito e “viveram felizes para sempre”, na mesma hora fechei e pensei, de jeito nenhum vou ensinar para meus sobrinhos que existe essa mágica de viver feliz para sempre num casamento, ou que esse é o único jeito de se viver feliz.

Não vou ensinar isso, peguei outra opção de livro.

E fiquei matutando o quanto eu preciso fazer essa escolha todo dia – Pega outro livro, Dani, e começa de novo. Chega de esperar príncipe. Ele não existe e você não é princesa.

Talvez nesse momento alguém esteja se questionando, mas Dani, você não acredita mais em casamento? Você não é cristã? Não somos filhos de Deus?

Sim somos, mas também no momento somos seres humanos imperfeitos. Ainda bem, diria eu.

E a resposta para as suas perguntas é que sim, eu ainda acredito em casamento, mas casamento como um relacionamento que se constrói, em que se decide todos os dias estar com aquela pessoa por um propósito maior, um propósito de família. Um propósito de aprender a se relacionar, aprender a estar junto, aprender a viver, a conviver, aprender a crescer, aprender a amar, aprender a se enxergar, aprender a se esticar, aprender a perdoar, aprender a assumir responsabilidades, aprender a mudar; e de forma alguma como motivação de apenas se fazer ser feliz.

Casamento não é uma forma de ser feliz para sempre, eu mesma tenho que repetir isso em voz bem alta para mim. Você pode e você vai ser feliz solteira(o)!

E seu casamento definitivamente não foi escrito nas estrelas, meus pais discordariam de mim e venho de uma família que espiritualiza tudo, mas temos escolhas. E como é bom ter escolhas, não é?

Fico me questionando o quanto que os movimentos das igrejas, as falas, as pregações, as idealizações do casar-se não contribuíram para uma geração inteira que espera o casamento dos sonhos? Tipo a minha geração, tipo eu aqui.

Se a gente for realmente olhar para os exemplos de casamentos na Bíblia vamos enxergar muitas, mais muitas imperfeições. Da onde vem essa ideia de casamento dos sonhos?

Você escolhe se casar, você escolhe se relacionar, e você pode escolher ficar solteiro, e nas múltiplas alternativas vão ter dias bons e dias ruins, vão ter dias incríveis e dias miseráveis.

Estar com alguém ou estar só não significa nenhuma garantia de ser feliz.

Eu não quero ir em mais uma cerimônia de casamento onde todos achem que aquele é o dia mais feliz da vida daquelas pessoas. Eu não acho que deveria ser. Penso que tem e terão outros dias mais felizes na vida de todos nós.

Eu não quero esperar por este dia, pode ser que ele não aconteça, e eu terei ficado esperando? Não, eu quero viver, quero viver as possibilidades do hoje, as possibilidades da minha carreira, as possibilidades dos meus outros relacionamentos, as possibilidades da minha vida solteira e sim da minha vida feliz. Feliz em saber que tenho Deus, feliz em saber que já sou amada.

Estou naquela idade onde quase todos meus amigos já casaram, alguns já estão com o primeiro filho, claro que ainda tenho amigos solteiros. Mas percebo que muitas coisas se sobrepõe. Afinal terão muitos dias difíceis, dias onde mesmo casado você irá se sentir muito sozinho. Porque não é e nem deveria ser o casamento que vai preencher seu vazio existencial mais profundo, não será aquele homem ou aquela mulher que vai te fazer feliz.

Eu preciso falar para mim mesma, Dani, você precisa estar feliz agora, feliz com você, feliz com Deus.

Chega de ser romântica demais, desce pra realidade, é na realidade que as coisas acontecem, de novo eu falo pra mim. Na realidade da sua vida de todo dia, chega de esperar que alguma coisa vai acontecer, chega de esperar que ele vai vir.

Atendo mulheres casadas e atendo mulheres solteiras, e dos dois lados a vida continua difícil, afinal essa vida é de escolhas. Essa vida é de dias difíceis e de dias fáceis. Dias gostosos e dias chatos. Não existe vida perfeita aqui, agora. Não existe casamento perfeito, não existe gente que é feliz o tempo todo, todos os dias, todas as horas, todos os minutos e todos os segundos.

Que hoje, onde quer que esteja, você seja feliz por estar vivo e poder viver aqui e agora.

Vai assistir Modern Love e depois me conta o que você acha e aonde reverbera na sua vida.

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Mais uma vez…

Acordo na penumbra da manhã de outono.
Silêncio vazio do lado de dentro e silêncio ouvindo os passarinhos do lado de fora.
Só escuto os grandes estalos da minha geladeira, eu, apenas eu e Deus estamos aqui; de novo.

Eu acordei e o sono não voltou. Eu queria que voltasse porque pensar sobre esses assuntos não estava na minha lista de planos para este sábado.

Vem um choro comedido junto com o soprar do frio que sinto dessa manhã de Maio. Me seguro.

Me vem uma tristeza, e demoro a conseguir desvendar o que estou sentindo de novo. De novo.

Eu não quero sentir pena de mim mesma, nem posso.

Tenho tanto, mas tanto para agradecer, mas de novo me vejo segurando as lágrimas.

Ainda dói, e que droga que ainda dói.

Eu queria ter sido escolhida, e não fui, o silêncio ficou, e quanto mais penso, quanto mais falo, mais me perco em o que aconteceu de fato?!

Me perdi no meio dos meus próprios sentimentos. Mas será mesmo que não tinha nada, nada, ali do lado dele? Será mesmo?

Morro pra saber disso, apesar de entender que não faria diferença.

“Dani ele não te quis.” Tenho que falar de novo pra mim mesma.

“Está tudo bem dani, segue em frente.”

Essa dani fala para a outra, mas a outra não acha que consegue.

Não consegue. Acordo e o sono não volta.
O sino da igreja toca.

Nesse silêncio escancara minha ferida mais profunda, rejeição é o nome dela.

A carrego desde pequena e é óbvio que em todas as minhas relações ela aparece de novo.

E nessa relação me chateou muito. Mexeu muito comigo, muito mais do que eu gostaria, e ainda por cima ele nem sabia.

E de novo tenho que ouvir o Pai me falar:

-Dani eu te amo tanto, do jeito que você é, você é a menina dos meus sonhos.

Tenho que me lembrar dos salmos de Davi, tenho que me lembrar de Deus falando que o fez de modo extraordinário. E me lembrar que Ele também fala isso pra mim agora.

E mesmo sozinha sinto vergonha de chorar, mas as lágrimas não podem parar.

Eu brinquei no final de semana passado, que coração partido serve para bons conteúdos de escrita.

Mas na verdade faz bem pra gente se voltar para nosso Criador, o amor mais importante da vida. Aquele que nunca nos rejeita, e que me ama por inteira.

Eu oro mais uma vez dessa vez sussurrando junto com o sol que nasce:


“Senhor até que nada mais importe, nem um coração partido, nenhuma ferida da alma, até que nada mais importe além de Ti e teu amor. Por favor Senhor, em nome de Jesus eu oro.”

Amém e amém, até amanhã eu espero…

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O deixamos de lado

Voltando da praia mais cedo com máscara e de ônibus. Eu amo longas viagens sozinha de ônibus. O tédio, o silêncio, e a constância do movimento, fazem bem pra mente e pro coração.

Passamos pelas montanhas, pelas cachoeiras e pela neblina que nos acompanhou na serra, meus pensamentos se perderam na neblina, e como névoa me levaram pra longe, pensei no futuro e no passado.


Chegamos perto do aeroporto de Guarulhos e me deu muitas saudades, muitas saudades de viajar.


Que estranho ter saudades quando ainda nem acabamos uma viagem, né?


Mas me lembrei de quando estive no avião da última vez, antes de toda essa loucura de corona vírus.

Foi no carnaval de 2020, e com uma amigdalite, fui visitar minha amiga Alicia nas montanhas de Lagoa Santa, MG.

Apesar de muita dor de garganta a visita fez bem pra alma, mas quando voltei não doía ainda minha amígdala, mas o meu coração partido.

E mais algumas semanas depois, todos nós tivemos nosso coração partido, de uma forma ou de outra, pela pandemia do corona vírus.

Mas agora, no final de janeiro de 2021, as vacinas começam a correr em braços brasileiros e com elas a espera de que voltaremos a viajar outra vez.

Assim espero, espero voltar a visitar minha amiga Alicia e não ter meu coração partido de novo quando voltar a pousar em São Paulo.

Será este um desejo que realmente posso ter? Fico pensando…

Coração partido faz parte da vida, faz parte da corrida.

Como respirar, como se machucar.

Não dá pra correr uma maratona e não ter bolhas e dores no pé, dá? Eu não sou corredora então não sei dizer. Mas acho que também não dá pra viver a vida sem ter dor no coração.

A dor e alegria andam juntas, o doce e o amargo também.


No ano de 2020, depois de Julho, eu parei de ouvir as notícias. Todos os dias meu coração doía com os relatos de mortes e tragédias ao redor do mundo.


Ficava sabendo de uma notícia aqui ou ali quando algum cliente me contava junto de suas angústias.
Ficava sabendo de coisas demais quando ia visitar meus pais e meu irmão obrigava, a todos nós, a ouvir CNN logo de manhã. Às vezes em minha súplica ele desligava. Que alívio.


Mas de novo no começo de 2021 fico sabendo de tragédias por clientes. Na despedida de uma cliente que decidiu voltar para o Oriente Médio, ela me conta sobre a invasão do Capitólio em Washington.

Logo penso na família Syme. Molly Syme minha grande amiga vem de lá, e toda sua família ainda mora na região. Fico pensando se eles estão bem. Mando uma mensagem e descubro que graças a Deus estão fisicamente bem. Mas o coração, o coração está partido.


Então naquele dia eu decido ouvir o podcast da BBC, o global news. E tão logo vem partir meu coração também, os Estados Unidos de cabeça pra baixo, um ataque terrorista em Bali e 200 pessoas se foram. Imigrantes na Bósnia morrendo de frio.
As lágrimas não aguentam e escorrem, e eu fico pensando como Deus aguenta?


Ele deve chorar também, tanta maldade. Tanta tragédia.

E tudo isso porque a cada dia a gente se afasta dEle. Ao nos consumirmos em nós mesmos nos esquecemos dEle.
Nos esquecemos que toda bondade vem dEle.
Toda alegria vem DEle.
Todo amor emana de suas veias. Todo sentido existencial da Vida vem dEle.
Então eu oro para não partir mais o coração de Deus.
E peço perdão por o ter partido já tantas vezes, ao ter
O deixado de lado.

E penso o que está de errado no mundo é justamente isso: O deixamos de lado.

Então eu peço de novo, abro os olhos e digo: “Não nos deixe Senhor, não nos deixe te deixar.”

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Acompanhada de lágrimas

Acordei já engasgada com o choro, engraçado como algumas coisas parecem que simplesmente borbulham na água tranquila, do nada, água da represa e água do coração.

Engraçado como uma frase, um cheiro, um gosto, uma sensação, te leva de volta para alguns lugares de saudades, alguns lugares de alegria e alguns lugares de tristeza.

Talvez seja porque eu estou estudando sobre luto essa semana, me preparando para uma aula que vou dar, para o treinamento no capacitação para trabalhar com filhos de terceira cultura.

Abri o pote de manteiga de amendoim natural e o aroma me levou de volta para Suazilândia, como um flash, a cena de quando 16 meninas compartilharam uma casa na estrada de terra, sem banheiro de descarga e sem chuveiro. A gente tinha que ajudar quem tinha cabelos mais pesados a lavar no balde, privilégio que não precisei passar…

Engoli a comida do almoço, minha fritata de legumes com dois ovos, e cada garfada veio acompanhada de lágrimas. Afinal o que é que estou sentindo?

A verdade é que acordei com vergonha, vergonha da minha própria ansiedade, que talvez me fez passar como uma menina boba, necessitando da aprovação de todos, principalmente do professor, me lembrei da cena de novembro passado, quando fiquei perguntando tantas coisas na aula, e não impressionei a pessoa que mais queria impressionar, e não, não era o professor, pelo contrário…

Levantei lembrando dessa cena e com vergonha de mim mesma, hoje pensei: “-Dani, por quê você estava assim? Tão ansiosa… Deixando as palavras saírem tão rápido?”

A verdade é que hoje parece que nem a reconheço, aquela Dani de novembro. Mas eu sei porque ela estava tão ansiosa, ela queria muito que ele olhasse pra ela, que fosse cuidadoso, carinhoso, que escolhesse ser seu amigo.

Mas isso não aconteceu. O silêncio ficou.

E hoje quando acordo na minha casa, sozinha, e almoço sozinha, um ano depois a história ainda está aqui do lado, posso pegá-la com as mãos.

Ainda? Ainda você gostaria de me dizer…

Mas o que faço agora com as lágrimas que insistem em cair. Este é meu luto talvez.

Sim, o meu luto e minha luta.

Eu não esperava estar morando sozinha, não agora, não com essa idade…

Estou morta de felicidade mas ao mesmo tempo a dor também vem devagar, devagarinho, sangrando aos poucos.

E eu preciso deixar ela vir, e saber que hoje é um dia difícil, mas amanhã será melhor.

Então me lembro dos meus dias na Suazilândia, o cheiro da manteiga de amendoim me lembra… Por um tempo já tinha me esquecido. Os dias lá foram tão ambíguos.

Tinham as larvas em nossos ovos do almoço, e também em nosso banheiro.

Tinha a poeira da estrada seca que nunca ía embora, tinham os outros bichos que a gente morria de medo, tanto medo que armamos nossas barracas para não entrar as aranhas enquanto dormíamos.

Não tinha chuveiro, não tinha internet, não tinha geladeira.

Mas tinha muito amor, tinham risadas na cozinha, tinha insanity quase todos os dias regados de incentivo de cuidado e afetos de meninas umas pelas outras. Tinha The O.C. no computador, quase todas as tardes, deitadas no chão tinha carinho, tanto carinho.

Tinha o frescor da manhã e o cantar dos animais logo cedo, tinha o respirar de Deus que podíamos sentir todos os dias, no quintal lá fora, tinha o orvalho nas folhas e nas plantas do chão.

Já aqui tantos anos depois, aqui desse lado do mundo, na minha casa sozinha tem tantas coisas.

Tem geladeira, tem chuveiro, tem internet e não tem larvas. Mas talvez o que falta é a companhia, a memória afetiva de um abraço, de um carinho, a companhia de alguém pra sentar do outro lado da mesa.

Sim, este é meu luto do momento, esta é minha luta.

Maggie Rogers está tocando no tiny desk;

Alegria está aqui, está MUITO aqui. Mas as saudades de ter alguém também…

Está tudo aqui.

Ambíguo como Suazilândia foi, ambíguo outra vez.

A vida é assim, não é?

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Kitchen floor

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At the end of the day

through the exhaustion of my body

I still want to go dance on my kitchen floor

and there with my socks on I meet you God.

Your presence comes and fill up the silence of the night

and make the empty house full.

There is no better place to be than at this moment on my kitchen floor,
socks on or barefooted, worship alternative music on.

My body moves alone, you are here with me

thank you God

always here with me.

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No Jardim

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Minha flor selvagem favorita

Eu amo a analogia de que nossa vida é um grande jardim, e Deus o melhor jardineiro para todos os processos que temos de viver. 

No encontro do Jardim lá está o Salvador, suas mãos sujas de terra. Ele está a trabalhar, afofar a terra dos cachepôs.

Sentado a certa distância está o dono do Jardim – no banco grande de madeira, seu olhar carrega paz; Ele observa com o coração tudo ao seu redor, os sons, as cores, os aromas, Ele sabe de tudo. A verdade é que o seu coração e o coração do jardim estão intimamente conectados, eles batem juntos e se tornam UM.

O Salvador e amigo me chama pra afofar a terra junto com Ele. Como criança me jogo ao seu lado, com um sorriso estampado, vou afofar a terra também. Sensação mais maravilhosa de terra embaixo das unhas, coisa de criança mesmo! A terra precisa ficar bem preparada – logo muitas sementes serão lançadas, algumas frutas, algumas flores.

Tem muitos cachepôs esperando e o trabalho é bem grande. Começo animada, olhando para Jesus, Ele está sempre a sorrir, afofar e assobiar, ele parece nunca se cansar.

Passa um tempo, e eu ajoelhada no chão,  olho para todas as floreiras que estão ainda vazias e desanimo um pouco. É então que ela vem. Ela, a velhinha mais fofa que já conheci na minha vida, ela passa as mãos em meus cabelos, faz um carinho nos meus ombros e me diz para ir sentar-me à sombra.

É hora do café e todos vão comer agora para retornar mais tarde. A mesa está feita. Tem todas as coisas gostosas que enchem meu coração. Ela senta-se ao lado do dono do Jardim, e eu me sento ao lado de Jesus. Damos as mãos, partimos o pão. E então já não estou mais cansada no encontro do Jardim…

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Um pedacinho do céu

Um pedacinho do céu. Esse foi o nome que minha irmã deu a uma das torradas que fiz nessa quarentena, nada mais do que pão caseiro com catupiry assado e alho frito. É uma delícia mesmo. E esse nome seria o mesmo do café que sonhamos em ter quando a gente se aposentar. Ficamos pensando em nomes de pratos e receitas que podíamos fazer. Sonhos, quantos sonhos.
Céu, quanto céu.

A verdade é que sei muito pouco sobre o céu e não tenho tanto interesse em estudá-lo teologicamente, pra mim não faz muito sentido, preciso entender, estudar, amar aqui e viver aqui, não é?

Mas o que eu gosto de fazer é sonhar e imaginar como será lá, imaginação é uma coisa linda, afinal foi Deus quem nos deu. Penso que vamos ter trabalho no céu, já que de acordo com Tim Keller, existia trabalho antes da queda. Mas a diferença é que o trabalho no céu será com o propósito certo, eu acredito com o que tenha a ver com nossa essência mais pura.

Sendo assim eu gosto de imaginar que serei do time de cozinheiros e hospitaleiros, aqueles que acolherão com abraço e com pão. Aqueles que receberão os trabalhadores dos campos, virão sentar todos à mesa para comer com nosso Senhor. E é daquelas mesas de madeira linda, de picnic, que não tem fim nem começo, toda redonda, de coisa sobrenatural mesmo, onde todos estarão sempre sentados, sempre terá espaço para mais alguém, e ao mesmo tempo estaremos todos ao lado de Jesus, olhos nos seus olhos.

Céu, só no céu.

E teremos pão caseiro, flores nos vasos, frutas dispostas, torta de maçã da Alicia, suco de limão com capim santo geladinho na medida. Parmesão reggiano inesgotável, vinho italiano, chileno ou sul africano, azeitonas zapatta, Brie, fondue, merengue da vovó Linda, mel, nozes, castanhas, tapioca, pão de queijo de Minas, puxa puxa da tia Pati, e sorrisos fartos com a chegada do café.

E os cheiros então, aromas de encher o coração de uma fornada infinita de pães celestiais, e cookies de canela. Abraços, sorrisos, toques e afetos não faltarão. E não, não teremos dólar alto, colesterol desregulado, diabetes alterada, nem obesidade e muito menos corona vírus, afinal estaremos no Céu, não é mesmo?
Onde a morte e a vida se tornam unidas pela mesma linha.

Ah que gostoso pensar no céu. Que imagens mais lindas que eu gosto de sonhar.

Ao mesmo tempo também fico me questionando se não podemos trazer um pedacinho do céu para o nosso todo dia aqui na Terra.
Um pedacinho do céu pra mim é quando trato alguém cheia de afetos.
Um pedacinho do céu é olhar para as florzinhas do meu chá de camomila, tão perfeitas, tão pequenas, tão lindas em simetria, que sou obrigada a sussurrar uma oração de gratidão.
Pedacinho do céu ao carregar a Dudinha no colo, a recém nascida da família, e saber que diante de sua perfeição de bebê só existe paz dentro dela.
Um pedacinho do céu ao olhar para o pôr do sol de outono e todas as suas cores quentes, e receber essa chuva do amor de Deus.
Pedacinho do céu ao estender a mão ao outro e ajudá-lo a sair do buraco.
Um pedacinho do céu ao conseguir perdoar alguém que me fez muito mal, e junto com o Criador conseguir seguir caminhando pra frente.

Um pedacinho do céu quando eu deixo de pensar só em mim e penso em todos, principalmente naqueles que tem menos.

Pedacinho do céu ao deixar de lado as agendas políticas e conseguir olhar para o humano, todo ser humano.

Um pedacinho do céu quando todos se reúnem a mesa e o tempo parece parar…

Ah quantas saudades, a gente se encontra em breve, até lá viva os seus pedacinhos de céu e eu te encontro nos meus.

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O céu de outono de 2020
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Será?

Mais um vez pela noite você aparece na minha tela. E então pronto agora o sono já era…
Viro de um lado pro outro tentando deixar você ir embora e finalmente conseguir descansar minha cabeça no travesseiro, mas tudo parece em vão.
Voltam todas as cenas de uma vez, e o não fica ainda mais claro.

Não é todo dia que você vem, mas quando vem, meu amigo, a angústia e a tristeza vem junto, e a incerteza então nem se fala. Ela não vem, ela já habita.


Fico pensando e pedindo para um dia poder te ver de novo, será mesmo que um dia eu realmente te encontro?
Te encontro, te encontro, sabe?

Não sei qual problema é maior; quando fico acordada pensando em você, ou quando finalmente fecho os olhos e em todos os meus sonhos lá está você de novo…

Me solta!
Ou eu te solto?

Não. Não, é difícil dizer mas eu ainda não quero te soltar.


Eu ainda tenho esperança que vou te encontrar de novo e que dessa vez será diferente. Será?

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Na minha tela – Jul 2020

Sê Valente

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Tentando ser valente na Victoria Falls em 2015

 

 Se tem uma coisa que a gente vai precisar no meio dessa crise toda é ser valente.

E ser valente no dicionário logo vem associado a Coragem, ser corajoso.

A  palavra coragem, para nós brasileiros, fica fácil de entender que vem do CORAÇÃO.

De tudo o que está no nosso coração.

Parece contraditório, né? Parece tão absurdo…

É sim, extremamente, vulnerável.

Mas não tem coragem sem vulnerabilidade, como a querida Brené Brown já nos ensinou em suas pesquisas. O caminho de abrir nosso ser e falar a verdade é doído,  mas ao mesmo tempo extremamente recompensador.

É o que nos conecta, e é o que nos faz viver melhor, é o que faz ser o pertencimento possível e o amor acolhido.

É ser imperfeito mesmo, e aqui que vive o truque, ser vulnerável, abrir o seu coração, não tem um pingo de fraqueza nisso, na verdade é um dos maiores atos de coragem que se pode ter.

Depois de me familiarizar com essa temática, eu tento de vários jeitos ter coragem em ser vulnerável, falar a verdade na minha vida.

Aqui é até um espaço no qual tento fazer isso, porque sei que isso me ajuda, e espero que ajude você também. E seja assim, afinal, que nos conectamos por meio de nossas histórias.

Por meio de poder contar que o que acontece comigo talvez aconteça com você também, e no final de tudo não estamos sozinhos.

Acho que isso é o mais importante de tudo — Não estamos sozinhos.

Não estamos passando pelo COVID 19  a sós!

E isso quer dizer que vamos precisar falar quando estiver muito difícil.

Vamos precisar falar quando acabar o dinheiro, quando não tivermos como pagar o aluguel, ou comprar os remédios, quando a rotina ficar irregular, quando a ansiedade aumentar ou ainda quando a tristeza bater e for tão forte que parece nos sufocar.

E isso quer dizer que também vamos precisar falar quanto amamos nossos familiares, quanto nos importamos com nossos amigos, e até com o amor não correspondido.

Não podemos mais desvalorizar nossos lugares de amor da vida, eu não tenho mais tempo para isso…

Porque, no final de tudo, ao falarmos vamos ficar mais fortes juntos. E nossa força está em se abrir, ter essa coragem.

O mundo nunca mais será o mesmo, e não podemos deixar que ele seja, porque quem sabe afinal agora podemos nos mostrar de verdade, e sermos mais inteiros, com menos medo do que vão pensar de nós, e mais medo de viver uma vida sem amor, pertencimento e alegria.

E quem sabe perceber afinal que, de fato, nunca estávamos sós.

Sê valente eu e você?

Oi, lembra de mim?

Nesse momento de pandemia talvez o tempo em si permita a reflexão, e com ela veio esse texto então:

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Oi, lembra de mim?

Não consegui dormir até finalmente colocar as palavras pra fora.

Acho que olhando a cena inteira agora, e lendo a história do fim pro começo, percebo que talvez tenha mesmo metido meus pés pelas mãos, como eles gostam de dizer…

Mas o que eu posso fazer? Nunca tinha conhecido ninguém igual a você…Alguém que se encaixava tão bem nos meus sonhos futuros.

Fui te dando várias dicas. Algumas bem sutis como dor de dente e outras tão ambíguas que até eu fiquei confusa. Mas pareceu que todas elas você deixou cair no chão; e do seu lado só ouvi os vazios do não.

Os silêncios das suas muitas palavras não ditas, em áudios vazios de emoção. Bem o oposto do meu coração.

O que eu posso fazer? Talvez, afinal, seja culpa dos meus cabelos intensos.

Eu me entrego, me envolvo, me jogo, e talvez eu tenha te assustado, te dado medo.

Mas medo eu também tive, medo do não. Não ser boa o suficiente, não ser legal o suficiente, não ser inteligente o suficiente, não ser bonita o suficiente,  não ser crente o suficiente. Não, não, esses medos não são seus não, são meus, só meus…

E a vergonha, a vergonha nem se fala, minha fiel companhia em toda essa jornada. Vergonha do chocolate no meu bolso, vergonha do meu sorriso meio torto, vergonha dos meus pais, vergonha do meu corpo, vergonha dos meus sonhos, vergonha até de ser mulher e por muito tempo acreditar que não podia dar o primeiro pé.

A vergonha só aumentava enquanto do seu lado não ouvia nada.

Talvez você nem saiba os efeitos que teve, e eu não te culpo, que culpa teria?

Ainda assim parece que a gente não manda no coração, porque mesmo depois do adeus eu ainda queria te encontrar.

E nessa época de crise meus dedos saltitando com a vontade de te mandar uma mensagem e saber se você estava bem, no entanto mesmo mortos de preocupação, eles nada digitaram, porque sabiam que nada além do silêncio teriam em resposta.

E agora? Agora só fica a vergonha, a vergonha de saber que nunca vai me responder…